►Até
os três anos de idade, as mordidas são conhecidas, comuns entre as crianças,
mas sempre preocupam pais e professores. Para entender o fato, é preciso voltar
nossa atenção para o desenvolvimento físico e emocional das crianças.
O mundo pela boca
Crianças pequenas
têm interesse e curiosidade por tudo que há à sua volta. A grande interação com o mundo, todos sabem, principia
pela boca, por onde o indivíduo faz importantes descobertas separando o que o
constitui e o que constitui o outro. Significativas sensações de prazer físico,
psíquico e social acontecem nesse período, que acompanha a dentição. Na fase
oral, encontramos, com frequência, a criança
mastigando, sugando, chupando, produzindo sons, levando objetos à boca. E mordendo. Desejando conhecer o
outro, apropriar-se dele - coisas e pessoas - , manifesta-se desse modo, com
essa agressividade primitiva.
É meu!
É meu!
É claro
que, um pouco mais tarde, a mordida ganha nova feição, passando a ser um modo
de chamar a atenção mais rapidamente ou a resposta a um desejo contrariado
(antes o choro era o recurso mais utilizado para isso). Normalmente essa
criança ainda não fala com tanta fluência, articula as palavras com alguma
lentidão e sabe que, com essa abordagem mais "enfática", resolverá
mil vezes mais rapidamente a disputa pelo brinquedo. Apesar de sabermos que
essas manifestações agressivas na infância não resultam na constituição de um
sujeito violento na idade adulta, é claro que esse comportamento deve ser
desestimulado. Com a estruturação da linguagem e do pensamento, com a
construção da razão, a criança encontra estratégias mais refinadas para
solucionar conflitos. Em situações
estressantes, esse tipo de reação também não é
algo raro. Mães e professores têm relatos de crianças que, em meio a um grande
número de pessoas, como em festas, por exemplo, mordem por ansiedade e
insegurança. Alguns momentos na vida da família também podem detonar
irritabilidade e agressões: um irmãozinho
chegando ou recém-nascido; pai e mãe se
separando; mudança de casa ainda não assimilada; todos são exemplos muito
comuns. Ainda devemos lembrar dos filhos únicos e mais possessivos, que
costumam ter um baixo nível de tolerância.
Ajudando a criança que morde
Cabe-nos
ajudar tanto a criança agressora quanto a que sofre as investidas identificando
as razões das mordidas e interrompendo o processo para evitar a instalação da
agressividade no grupo. Dê possibilidade a seu filho ou aluno de expressar o
que ele sente para que compreenda o que está acontecendo consigo. Quando ele
não souber dizer por que mordeu o colega, experimente oferecer-lhe algumas
opções. Fora da situação em que os ânimos estão exaltados, mostre à criança que
o amigo ficou triste e machucado. É importante considerar que o conceito de
dor, como o de outras sensações, é construído. Imaginar-se no lugar do outro é
um excelente exercício para despertar a percepção das
consequências das ações que se pratica. Por
mais que pareça a melhor medida, o isolamento da criança não resolve o
problema. Aprende-se a conviver bem experimentando a convivência. Ao mesmo
tempo, dê mais atenção às crianças para reduzir a incidência de ataques.
Antecipe a ação negativa intervindo para evitar
que a criança reincida. É preciso aprender a identificar o contexto dentro do
qual ela apela para a mordida. Assim, quando estiver diante da situação-limite,
a criança terá a chance de ser estimulada a trocar a comunicação corporal pela
argumentação verbal. Impeça que a criança sinta-se premiada com o comportamento
inadequado. Ela não deve usufruir daquilo que conquistou à base da mordida
(isso vale para chutes, beliscões, tapas, arranhões). Além disso, estimule
sempre um pedido de desculpas. Se você perceber a necessidade de ameaçar com
uma medida punitiva, combine o que acontecerá se o ato voltar a ser praticado e
cumpra o combinado. Voltar atrás é dizer que você não tem certeza de sua
decisão. Vale lembrar que a punição não deve ser física e que a criança não
deve ser humilhada.
Ela foi mordida de novo
Ela foi mordida de novo
Muitas
vezes, avalia-se que uma criança é precoce, que é mais madura porque gosta mais
de conviver com crianças mais velhas ou com adultos, demonstrando desconforto,
inquietude, irritação quando está com outras crianças de sua idade. Claro que é
possível que isso ocorra, mas o que verificamos, normalmente, é que o dia-a-dia
entre indivíduos da mesma faixa etária, na fase do desenvolvimento de que
estamos tratando, é mesmo o que há de mais difícil - por isso, às vezes, menos
desejado -, pois todos têm demandas semelhantes. Aqui não há o que "tem
que ceder porque o amigo é mais novo".
Voltemo-nos para a criança que é mordida repetidas vezes. Ela precisa de
acolhimento - atenção e ajuda - para melhorar seus reflexos, expressar seu
descontentamento e encontrar mecanismos de defesa. Fortalecê-la, porém, não é
incentivar o revide, o que ocorre com frequência com alguns pais pelo receio de que seu
filho se torne um sujeito passivo diante da vida. É preciso lembrar que o
adulto não deve oferecer um modelo agressivo sob pena de fixar o ambiente
hostil que está rondando os primeiros relacionamentos da criança. Por mais que
seja sofrido ver o filho marcado por um colega, evite o rancor, pois a criança
que morde não é má, e seus pais sofrem muito temendo que ela seja discriminada
pela turminha e pelos outros pais.

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